Desfile
Etnográfico
O passado das ilhas tão perto e tão longe
DESFILE Etnográfico Regional:
o passado revisitado nas ruas e praças de Angra do Heroísmo.
(Fotos de João Costa/DI)
A
riqueza dos usos e costumes dos nossos antepassados foi
recriada anteontem (domingo, dia 25 de Junho) nas
principais artérias de Angra do Heroísmo: 500 pessoas
(de todas as ilhas, à excepção do Faial) deram vida e
cor a 28 quadros no Desfile Etnográfico Regional das
Sanjoaninas 2000.
O Desfile Etnográfico
Regional foi um dos pontos altos do quarto dia (domingo,
dia 25 de Junho) das Sanjoaninas 2000.
O cortejo, constituído
por 28 quadros, contou com a participação de 500
pessoas, representativas de concelhos de todas as ilhas -
à excepção do Faial - fez o percurso Rua de S. Pedro,
Alto das Covas, Rua da Sé, Rua Direita e Pátio da Alfândega.
Santa Maria e S. Miguel
A abrir o desfile
a representação de Santa Maria: "Reza ao Divino em
cantares de Foliões para nos mostrar a devoção mais
antiga e sempre actual das nossas ilhas. Os foliões -
pode ler-se no programa do Cortejo Etnográfico, elaborado
por Alberto Melo, Fernanda Evangelho e Francisco Parreira
- acompanhavam toda a festa, quer em casa do mordomo, no
cortejo para a Igreja e Bodo no Terreiro".
O concelho de Ponta
Delgada presenteou o público das Sanjoaninas "com um
maravilhoso carro do Senhor Espírito Santo, ornamentado
para a distribuição de pensões, acompanhado pelo grupo
de Foliões da Bretanha".
O concelho do
Nordeste trouxe um quadro "do regresso de um dia de
trabalho, preparado pela Associação Sol Nascente, e que
nos leva aos anos quarenta. Homens descalços em trajes de
trabalho, fumando cigarros de fuleiro; mulheres de saia de
chita com cestos de comida e pratos de pó de pedra, jarro
de barro com água fresca da nascente; crianças felizes
brincando com carriola e carrinho de abóbora".
Com a colaboração
da Santa Casa e Junta de Freguesia do Faial da Terra, o
concelho da Povoação, fez-se representar com aspectos
relacionados com "trigo, milho e outros cereais,
assim como da actividade piscatória".
Uma apanha de chá
foi o motivo inspirador do concelho da Ribeira grande,
"onde se faziam as plantações do chá, às costas
ou de carroça. As folhas vinham em sacas e lençóis de
lona. Quem desce o maravilhoso vale das Furnas para a
Ribeira Grande pode ainda hoje apreciar lindas plantações
do famoso chá gorreana".
O concelho de Vila
Franca do Campo (representado pela freguesia de Ponta Garça),
fez desfilar "a ceifeira, a lavadeira, a mulher à
fonte com traje domingueiro, o lavrador, a mulher doméstica,
o camponês, o romeiro e a mulher de romeiro".
Flores e Corvo
O quadro típico
de uma família corvina constituiu a representação da
mais pequena ilha do arquipélago: "O Corvo pequeno
em tamanho, grande, muito grande mesmo, no viver das suas
gentes, que encantam em hospitalidade quem o visita. O
Corvo forma com os seus habitantes, uma família grande
onde reina a felicidade e o gosto de viver".
"O gorção,
meio de transporte único da ilha das Flores, usado em
lugares demasiado íngremes e estreitos, aonde os carros não
podiam chegar, e que servia para transporte de inhames e
comida para o gado" - um, entre outros dos motivos da
representação daquela ilha do Grupo Ocidental: "a
mulher e o lavrador, trajando linho, estopa e baeta nas
roupas quentes que os teares fizeram noite dentro à luz
de lanternas acesas e brazio que restou à boca do forno.
O traje da senhora, genuíno, do final do século
passado".
Pico
O concelho das
Lajes do Pico - terra de baleeiros, famosa pelo seu Museu,
vila piscatória de belíssimas tradições e festas
populares - apresentou-se com "um carro utilizado
para transporte de pão e uma carroça para transporte de
passageiros".
Da Madalena do Pico
chegou-nos "o pastor, o pescador, o trabalhador
rural, os vindimadores, os agricultores, bem como ilustrações
sobre a apanha de figos, a recolha de lenha e o transporte
de água. O "Adamastor" era o barco que fazia a
ligação diária com o Faial para as tradicionais trocas
comerciais, trazendo as vendedeiras". Pode ler-se,
ainda, no programa do Desfile Etnográfico Regional das
Sanjoaninas 2000 que "ninguém poderá falar do
concelho da Madalena sem referir uma figura carismática:
o Sr. Gilberto, que marcou pela sua simpatia, aliada a uma
eficiência inigualável, o transporte e distribuição de
encomendas entre Pico e Faial". Segundo o texto
assinado por Alberto Melo, Fernanda Evangelho e Francisco
Parreira "não há história de engano ou extravio, e
mesmo sem conhecer uma letra do alfabeto eram feitos depósitos
bancários, com saldos certos e comprovativos entregues
aos que nele confiavam, o mesmo sucedia com a distribuição
de cartas e de outros documentos. Ele era mais certo, rápido
e seguro do que os sofisticados meios que hoje dispomos e
que nos levariam a encher páginas com histórias de
trocas, atrasos e até desvios".
O concelho de São
Roque do Pico, virado para a construção naval pela
necessidade de buscar no mar o que em terra lhes faltava
para a sobrevivência, mostrou-nos uma miniatura de barco
de boca aberta:"Normalmente este barco tinha 20 a 25
pés de comprimento, ou seja, seis a oito metros, e era
movido a remos ou vela, deslocando-se até dez milhas. Por
vezes, para além da pesca, serviam de transporte de
trabalhadores, principalmente pedreiros, para a vizinha
ilha de São Jorge".
São Jorge e Graciosa
O concelho da
Calheta exibiu um quadro com motivos alusivos ao Espírito
Santo: "A freguesia de Santo Antão mantém bem viva
toda a tradição do ciclo das festas ao Divino Espírito
Santo. No sábado, véspera da grande celebração, trata
o mordomo de transferir de sua casa para a casa do Espírito
Santo, o pão e o vinho do repasto comum, seguindo-se os
simbólicos mantimentos em seus carros de bois devidamente
ornamentados. O carro do pão, com armação de vime
coberta de lençóis brancos com debruns de renda ou croché,
levava vistosas bandeirolas desfraldadas. Os bois iam
enfeitados com fitas e rosetas de oito dezenas de pão
apetecíveis. O carro do vinho, também com fitas
ondulantes no corpo e arco florido na canga é um veículo
quase sempre mais pequeno, tentando recordar uma
adega".
"O carro de bois
regressando das lides da debulha, com sacos de cereal, bem
como o casal que o preparou após a debulha; carroça com
pastor na ida à ordenha e carroça de passeio com
casal" - os ingredientes dos quadros da representação
do concelho de Velas, na ilha de S. Jorge.
"O carro de bois
com bancos e cadeiras, enfeitados com flores e galhos de
faia; a carroça do burro com bancos e flores presas nos
fueiros; o condutor, por vezes sentado na albarda,
enquanto que ao som da viola cantavam-se lindas canções"
- meios de transporte usados em romarias aos lugares mais
pitorescos da Graciosa: Caldeira, Carapacho, Barro
Vermelho e Porto Afonso.
Terceira
Anfitriã deste
cortejo, a Terceira mostrou a riqueza etnográfica dos
concelhos de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória: venda
de bois à praça, carrinhos em miniatura, carro da matança,
muda para a Feteira, o cabreiro e suas cabras, transporte
do milho, carroça das achas, carroça das malhetas, carro
das vindimas, carro de bois para transporte de pessoas,
carroças de transporte e de passeio e a ferra. |
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Diário Insular de 27/06/2000
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