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O Jornal da Cidade da Praia da Vitória - Açores

Jornal da Praia

Edição de 29 de Outubro de 1999       Ano XVII     Nº 279

Igreja Matriz

 
 
  Via Oceânica, Marketing e Informática, Lda.

Entrevistas

Jornal da Praia (JP)-"Meti-me por terras fora/Abalei para a cidade/Veio comigo a "bela aurora"/Não me esqueci a "saudade"".

Este vosso trabalho reúne composições originárias do Alentejo, Minho, Açores e alguns inéditos.

Qual a razão de terem enveredado pela música tradicional portuguesa?

Alma Popular/Tibério Carreiro (TC)-O projecto traçado por mim é mesmo música popular.

As 12 músicas que compõe este nosso primeiro trabalho, pelo facto de o grupo ser composto por malta jovem, sofreram profundas alterações.

Não seguimos o popular açoreano, a sonoridade típica da musica popular tradicional, a chamada "bezerrada".

Os arranjos efectuados pelo grupo denotam a evolução que os temas originários sofreram.

Fazer arranjos, dá-nos um enorme gozo. É o nosso estilo musical.

O próprio nome Alma Popular tem muito a haver com o projecto inicialmente traçado por mim. É preciso ter muita garra "popular" para ter malta jovem interessada a tocar música tradicional portuguesa.

JP-A Ronda dos Quatro Caminhos, a Brigada Vitor Jara, ou os Quadrilha de Sebastião Antunes, têm dado continuidade às sonoridades da música tradicional portuguesa. Quais são as vossas influências musicais?

TC-A música açoreana tem influências do Continente, flamenga e outras. São criações originárias dos Açores "Os Bravos", os "Olhos Pretos", são exclusivamente músicas açoreanas.

Naturalmente, os temas originários começaram por sofrer alterações ao longo dos anos, a exemplo da introdução de novos instrumentais.

Cá nos Açores, somos muito ricos em muitas composições de cariz folclórico tradicional. Todas as nove ilhas têm as suas particularidades e riqueza de repertórios. O isolamento motivou a improvisação.

No nosso caso, tentamos juntar os vários estilos e criar um nosso. Tentamos evoluir.

Os Quadrilha, a Brigada Vitor Jara ou a Ronda dos Quatro Caminhos, têm elementos jovens e tal como os Alma Popular influenciam um tipo de música mais ligeiro e menos carregado de tradicional, o que torna a música popular, muito mais bonita.

JP-Qual é a vossa formação musical?

TC-Desde o Conservatório ao simples tocar pelo ouvido. A nossa diversificada formação musical adapta-se ao nosso estilo musical. A própria criação musical funciona de acordo com a formação musical de cada elemento que compõe os Alma Popular.

Muitas vezes aparece a letra e de seguida a parte musical, o que torna, o acto criativo muito mais difícil.

Normalmente, fazemos as músicas e depois surgem as letras.

Quando ensaiámos, temos a noção do que pretendemos fazer. Os elementos que têm formação musical, elaboram os acordes e os arranjos mais complexos, e que requerem maior cuidado musical.

JP-A presença do cavaquinho é pouco usual em grupos açoreanos. Nas "Cantigas de Terreiro", este instrumento está praticamente presente em todas as faixas. O porquê da utilização deste instrumento?

O cavaquinho é um instrumento pequenino, mas com alma grande. Caí bem em qualquer tema.

Funciona como suporte e acompanhamento. O bandolim também faz alguns acompanhamentos. Também utilizamos outros instrumentos.

A utilização deste instrumento deve-se também ao excelente som transmitido pela sua caixa acústica.

Quando formei o grupo, o cavaquinho foi um dos instrumentos logo aprovados.

O lema do grupo é nada de instrumentais eléctricos, tudo instrumentos acústicos ou semi-acústicos, o que, também, nos facilita nas deslocações.

JP-O público tem sido receptível às "Cantigas de Terreiro"?

TC-Antes de sair o CD, o público já conhecia o nosso trabalho.

Quando estamos em palco, sentimos que desde os mais novos aos mais velhos, todos vibram com as nossas actuações.

A forma como fazemos os arranjos, a maneira como tocamos, o próprio estilo do grupo, atinge todas as idades.

A edição de "Cantigas de Terreiro", veio reforçar a aceitação ao projecto "Alma Popular". As próprias estações de rádio começam também divulgar os nossos temas. O número de espectáculos aumentou.

Sem dúvida que um trabalho registado reforça e dá muito mais ênfase ao grupo. A qualquer grupo.

Os anos de 98 e 99 foram grandemente positivos para nós.

JP-...e em termos de mercado?

TC-Estamos a aproveitar a edição do CD.

Este trabalho foi na sua totalidade custeado por nós. Editamos 1000 CDs.

Neste momento, o grupo promove e tem a gestão das vendas.

Abranger um mercado mais vasto, provavelmente, passaria pela possibilidade de "engatar" este CD num qualquer distribuidor com projecção.

Todas as rádios dos Açores e algumas do Continente têm uma cópia.

Os produtores que existem nos Açores não querem ganhar dinheiro. Contactei por três vezes, via fax, um produtor açoriano, no sentido de nos facultar um orçamento para 2000 CDs. Até à data nada!

JP-Como é que decorreram as gravações?

TC-Gravamos na Igreja de Santo Cristo.

Foram grandes maratonas. Em apenas três dias, gravamos todo o material em bruto que, segui para os processos de mistura e masterização.

Começávamos às 19H30 e terminávamos pelas 4 ou 5 da madrugada.

Felizmente que o movimento aéreo, nos três dias de gravação, foi praticamente nulo. Santo Cristo protegeu a gravação!

Todo este processo foi dirigido e executado pelo terceirense Emiliano Toste.

Não estávamos minimamente preparados mas, o Emiliano Toste, colocou-nos logo no plano de trabalho previamente estipulado por ele, o que nos facilitou bastante. Assim, conseguimos adaptar-nos ao ritmo profissional das gravações.

JP-Os "Alma Popular" no futuro?

T.C.-De momento, trabalhar mais os actuais temas. Reformular o nosso repertório. Dar uma nova cara.

Vamos, também, trabalhar novos temas do nosso vasto repertório da música tradicional portuguesa.

Um próximo CD está dependente da aceitação do público a este nosso primeiro trabalho. Talvez daqui a um ou dois anos. Não vamos marcar prazos.

Dentro de pouco tempo, o grupo tem a possibilidade de ir à Semana Cultural no Canadá que decorre de 21 a 30 deste mês.

Aproveitaremos esta deslocação para promover as "Cantigas de Terreiro".

 

Alma Popular

Composto por 12 temas retirados do vasto repertório da música tradicional portuguesa, o primeiro trabalho editado pelo grupo praiense "Alma Popular" e apresentado a 30 de Julho do corrente ano no Espaço Praia Cultural, "Cantigas de Terreiro", promete lançar a Praia da Vitória no panorama musical português.

Os sete elementos que compõe o grupo: Tibério Carreiro (cavaquinho, bandolim, coros e voz solo); Evandro Machado (acordeão, bandolim, coros e voz solo); José Aurélio (violão baixo e coros); Pedro Machado (flauta, bandolim, cavaquinho, coros e voz solo); Pedro Forte (banjo bandola, bandolim e coros); Jorge Areia (violão e coros) e Pedro M. Machado (percussões), apresentam-se em palco de forma muito solta e simples. O estilo musical que imprimem às actuações, prendem a atenção do público. Desde o miúdo ao avôzinho, todos batem o pé.

Inicialmente com 6 elementos, os "Alma Popular", em 1 de Setembro de 1996, começam a dar os primeiros passos. Actuam em festas particulares e efectuam trabalhos de estúdio. Procuram um estilo próprio e adequado ao projecto inicialmente traçado pelo fundador Tibério Carreiro. Os convites começam também a aparecer, tendo sido, os anos de 98 e 99, grandemente aproveitados por este grupo praiense.

Com direcção artística de Tibério Carreiro, gravação e masterização de Emiliano Toste, concepção gráfica e fotografia de Carlos Armando, as "Cantigas de Terreiro", buscam no suporte da flauta ou do cavaquinho, esse instrumento pequeno mas de alma grande, um estilo muito próprio e evolutivo no panorama da musica tradicional, quer açoriana, quer continental.

Nos 12 temas que compõe este álbum, os "Alma Popular" leva-nos a percorrer Portugal em 49 minutos. No Minho um pé de dança com a "Chula de Cabril", no Alentejo visita-se o "Menino Jesus" e no de regresso à Terceira, assistir a uma "Tourada" na Vila Nova.

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