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O Jornal da Cidade da Praia da Vitória - Açores

Jornal da Praia

Edição de 03 de Setembro de 1999       Ano XVII     Nº 277

Igreja Matriz
Via Oceânica, Marketing e Informática, Lda.

Crónicas

Prosas delirantes

Pastoral autárquica

Se alguém ainda põe em dúvida os frutos produzidos pelo Concílio Vaticano II, à distância a que nos encontramos dele no tempo, está completamente distraído.

Pelo menos no que toca à participação dos leigos na vida da Igreja, o Concílio continua a apresentar os mais espectaculares resultados, por muito que discorde disto o Senhor cardeal Ratzinger.

O caso mais recente aconteceu no Cais do Pico e está estampado, preto no branco, no prefácio do livro do Pe. José Idalmiro, intitulado «PATRIMÓNIO RELIGIOSO/ CONCELHO DE SÃO ROQUE DO PICO», assinado pelo Presidente da edilidade daquele concelho.

Efectivamente, a dado passo do dito texto podemos ler, não sem estupefacção, o seguinte trecho: «Não posso deixar de referir que existe actualmente um crescente afastamento da população em relação à Igreja. Não significa isto, que haja menos fé, mas que há necessidade urgente de uma renovação de atitudes, por parte dos seus representantes, principalmente a necessidade de terem uma atitude positiva relativamente ao meio que os rodeia, para que a população se reveja neles e se sinta motivada a ir à Igreja».

Independentemente da sua justeza ou não, em termos gerais, o comentário revelou-se sobremaneira infeliz pelo contexto em que foi tecido e denuncia com alguma evidência outras intenções subjacentes que não a avaliação do panorama em que se desenvolve a relação clero-fiéis, e a preocupação com esse mesmo panorama, que, sendo de crise, exige uma análise de fundo, de natureza necessariamente complexa.

Fazê-lo num texto que prefacia o livro dum sacerdote que foi convidado pela própria Câmara Municipal a escrevê-lo, sem que o conteúdo do mesmo tenha sido dado a conhecer previamente ao autor da obra, não é, concerteza, uma atitude leal e correcta, além de indiciar a vontade de enfiar barrete (neste caso não tricórnio, mas bi ), ou então punhal traiçoeiro, nas costas de quem, com sacrifício, trabalho e dedicação, cumpriu honradamente a sua missão, somando mais um ao incontável rol dos serviços prestados ao Pico e às suas gentes.

Se o objectivo era oferecer um prato envenenado ao respeitável e respeitadíssimo sacerdote, tire o dito autarca "o cavalinho da chuva", porque tentar beliscar o Pe. José Idalmiro equivale a pretender cortar a montanha do Pico a meio com um canivete, tal é o apreço, a estima e a admiração que os picoenses têm para com ele.

O Presidente da Câmara Municipal de São Roque, ao servir-se do prefácio do livro para emitir uma espécie de pastoral autárquica, procurando tornar o alvo fácil, extravasou, em muito, o que preconiza o decreto conciliar sobre o Apostolado dos Leigos e ganhou direito a usar mitra, báculo, anel e cruz peitoral, e ser nomeado, pela Santa Sé, bispo auxiliar dos Açores.

Assim, o padre António Vieira, no Sermão sobre a guerra, apesar de ter procurado enumerar até à exaustão todos os que eram vítimas da insegurança provocada por esse «monstro», depois de afirmar que «até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro», poderia, hoje, acrescentar ainda que nem o Bispo de Angra está seguro na sua Sede.

 

Restauro da Matriz das Velas (1)

Concretização dum arrojado sonho

Nunca foi fácil nem cómodo a quem quer que seja conservar ou restaurar uma Igreja, muito menos uma Igreja com a envergadura e complexidade da Matriz de São Jorge.

Que o digam, a propósito, os muitos sacerdotes dinâmicos que, através da história açoreana, têm dedicado todas as suas energias e capacidades quer na conservação quer ainda em restauros completos das suas Igrejas, enfrentando não raras vezes, não só a acção adversa do tempo e as forças telúricas que se fazem sentir de vez em quando nos Açores, mas pior ainda, também a indiferença e insensibilidade de certas comunidades que se desobrigam de tais deveres.

Tudo se complica considerando a penúria de clero e a consequente anexação de paróquias para um só pároco mais a acentuada e evidente indiferença religiosa que se vai registando actualmente na diocese com os templos a esvaziarem-se.

Com esta situação crítica não poucas Igrejas acusam já um avançado e lastimável estado de degradação para não falar de certas ermidas que têm os seus dias contados... e casas paroquiais...

Reportando-nos à Matriz das Velas, muitas foram as transformações e as acções de conservação e restauro por que tem passado esta Igreja nas últimas três décadas - o restauro geral de 1964-65 e as últimas beneficiações levadas a bom termo nestes últimos vinte anos, data da nossa acção ministerial.

Trazendo à memória...

À luz desta constatação. Seja-nos permitido refrescar a memória dos menos atentos, trazendo ao de cima todo um trabalho continuado e porfiado a partir de 1980, a saber:

-Restauro completo da capela do Santíssimo Sacramento, aquisição do sacrário e demais peças ornamentais;

-Aquisição da nova e esbelta bancada para a nave lateral esquerda;

-Remoção das famigeradas platibandas que permitiam a infiltração das águas pluviais;

-A correcção do telhado de toda a nave central e dotação do respectivo forro que não existia;

-Substituição dos telhados e forro das Capelas Mor, Senhora das Dores, Santíssimo, Senhor Jesus, Sacristia, Sala Nobre e Museu de Arte Sacra;

-Limpeza das portas laterais e central, guarda-vento e feitura das do Museu, etc.;

-Restauro completo com a remodelação e ampliação do Órgão Histórico de Tubos;

-Dotação dos vitrais artísticos;

-Aquisição de quatro lustres de cristal;

-Finalmente, aquisição de uma série de alfaias, móveis, imagens e objectos vários para uso exclusivo da sagrada liturgia e valorização cultural da Matriz.

Inversão de valores

Todo este esforço, porfiado e permanente, sem um descanso e com muitas arrelias e consumições (Deus o sabe) tem-nos exigido por vezes muita coragem e determinação quando é sabido que hoje em dia nada se consegue sem grande esforço e dispêndio de energias perante uma acentuada onda de avassaladora indiferença e materialismo que infesta as nossas comunidades à medida galopante que os grandes valores - porque perenes e imutáveis - se vão invertendo. Vive-se mais para o Ter do que para o Ser. E muitos cristãos, porque incautos, deixam-se seduzir apenas pelo Ter!!!

Após dois meses e meio encerrada aos fiéis que habitualmente a procuram, eis que finalmente de novo, e no meio de grande júbilo a Matriz de São Jorge se abre ao público no exercício da sua missão de força moral e espiritual junto do Povo de Deus!

Do sonho à realidade

Tudo começara por ser um arrojado sonho, dos muitos que de vez em quando vão povoando o nosso inquieto e insatisfeito espírito. É que a mediocridade em que tantos apostam modernamente, com toda a sinceridade o dizemos, nunca bateu à nossa porta...

Criar condições para o belo, expressão máxima de Deus, na elevação e contemplação do Deus vivo, do espírito humano, tem sido sempre nota marcante e dominante da nossa conduta pastoral, da nossa actuação ministerial, embora nem sempre todos a compreendam...

De facto, nem sempre é fácil a sua concretização, passar do sonho à realidade! Todavia, quando a causa é nobre e tem o selo de Deus nada nem ninguém nos poderá deter, mesmo que certos ventos de incompreensão e ajuda reduzida possam soprar nessa direcção.

É que, geralmente, as grandes obras, os grandes empreendimentos - é a História quem no-lo testifica - não são o fruto de multidões desmesuradas, mas sim, o produto de poucas e sólidas vontades, apostadas na qualidade e na beleza!

Segurança a imprimir

Sendo o maior, o mais antigo e por conseguinte, o mais importante templo desta ilha, a Matriz de São Jorge, com as suas avantajadas naves de tectos forrados a estuque antigo, não oferecia, no nosso entender de muitos anos de experiência, a segurança necessária para os fins, devido à mais que evidente fragilidade do referido estuque susceptível de lascar e cair a qualquer sismicidade como realmente aconteceu na fatídica madrugada de 9 de Julho do passado ano.

Impunha-se, portanto, a sua renovação cuidadosa num trabalho série que não só obviasse a estes riscos imprevisíveis, mas também contribuísse de certo modo para um maior embelezamento e valorização do espaço litúrgico. É que Deus, como temos repetido infindas vezes, não precisa de coisas belas, mas merece-as!

Ele é a Suma Beleza!

 

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