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Prosas delirantes
Pastoral autárquica
Se alguém ainda põe em dúvida os frutos
produzidos pelo Concílio Vaticano II, à distância a que nos
encontramos dele no tempo, está completamente distraído.
Pelo menos no que toca à participação dos
leigos na vida da Igreja, o Concílio continua a apresentar os
mais espectaculares resultados, por muito que discorde disto o
Senhor cardeal Ratzinger.
O caso mais recente aconteceu no Cais do Pico e
está estampado, preto no branco, no prefácio do livro do Pe.
José Idalmiro, intitulado «PATRIMÓNIO RELIGIOSO/ CONCELHO DE
SÃO ROQUE DO PICO», assinado pelo Presidente da edilidade
daquele concelho.
Efectivamente, a dado passo do dito texto
podemos ler, não sem estupefacção, o seguinte trecho: «Não
posso deixar de referir que existe actualmente um crescente
afastamento da população em relação à Igreja. Não significa
isto, que haja menos fé, mas que há necessidade urgente de uma
renovação de atitudes, por parte dos seus representantes,
principalmente a necessidade de terem uma atitude positiva
relativamente ao meio que os rodeia, para que a população se
reveja neles e se sinta motivada a ir à Igreja».
Independentemente da sua justeza ou não, em
termos gerais, o comentário revelou-se sobremaneira infeliz pelo
contexto em que foi tecido e denuncia com alguma evidência outras
intenções subjacentes que não a avaliação do panorama em que
se desenvolve a relação clero-fiéis, e a preocupação com esse
mesmo panorama, que, sendo de crise, exige uma análise de fundo,
de natureza necessariamente complexa.
Fazê-lo num texto que prefacia o livro dum
sacerdote que foi convidado pela própria Câmara Municipal a
escrevê-lo, sem que o conteúdo do mesmo tenha sido dado a
conhecer previamente ao autor da obra, não é, concerteza, uma
atitude leal e correcta, além de indiciar a vontade de enfiar
barrete (neste caso não tricórnio, mas bi ), ou então punhal
traiçoeiro, nas costas de quem, com sacrifício, trabalho e
dedicação, cumpriu honradamente a sua missão, somando mais um
ao incontável rol dos serviços prestados ao Pico e às suas
gentes.
Se o objectivo era oferecer um prato envenenado
ao respeitável e respeitadíssimo sacerdote, tire o dito autarca
"o cavalinho da chuva", porque tentar beliscar o Pe.
José Idalmiro equivale a pretender cortar a montanha do Pico a
meio com um canivete, tal é o apreço, a estima e a admiração
que os picoenses têm para com ele.
O Presidente da Câmara Municipal de São
Roque, ao servir-se do prefácio do livro para emitir uma espécie
de pastoral autárquica, procurando tornar o alvo fácil,
extravasou, em muito, o que preconiza o decreto conciliar sobre o
Apostolado dos Leigos e ganhou direito a usar mitra, báculo, anel
e cruz peitoral, e ser nomeado, pela Santa Sé, bispo auxiliar dos
Açores.
Assim, o padre António Vieira, no Sermão
sobre a guerra, apesar de ter procurado enumerar até à exaustão
todos os que eram vítimas da insegurança provocada por esse
«monstro», depois de afirmar que «até Deus, nos templos e nos
sacrários, não está seguro», poderia, hoje, acrescentar ainda
que nem o Bispo de Angra está seguro na sua Sede.
Restauro da Matriz das Velas (1)
Concretização dum arrojado
sonho
Nunca foi fácil nem cómodo a quem quer que
seja conservar ou restaurar uma Igreja, muito menos uma Igreja com
a envergadura e complexidade da Matriz de São Jorge.
Que o digam, a propósito, os muitos sacerdotes
dinâmicos que, através da história açoreana, têm dedicado
todas as suas energias e capacidades quer na conservação quer
ainda em restauros completos das suas Igrejas, enfrentando não
raras vezes, não só a acção adversa do tempo e as forças
telúricas que se fazem sentir de vez em quando nos Açores, mas
pior ainda, também a indiferença e insensibilidade de certas
comunidades que se desobrigam de tais deveres.
Tudo se complica considerando a penúria de
clero e a consequente anexação de paróquias para um só pároco
mais a acentuada e evidente indiferença religiosa que se vai
registando actualmente na diocese com os templos a esvaziarem-se.
Com esta situação crítica não poucas
Igrejas acusam já um avançado e lastimável estado de
degradação para não falar de certas ermidas que têm os seus
dias contados... e casas paroquiais...
Reportando-nos à Matriz das Velas, muitas
foram as transformações e as acções de conservação e
restauro por que tem passado esta Igreja nas últimas três
décadas - o restauro geral de 1964-65 e as últimas
beneficiações levadas a bom termo nestes últimos vinte anos,
data da nossa acção ministerial.
Trazendo à memória...
À luz desta constatação. Seja-nos permitido
refrescar a memória dos menos atentos, trazendo ao de cima todo
um trabalho continuado e porfiado a partir de 1980, a saber:
-Restauro completo da capela do Santíssimo
Sacramento, aquisição do sacrário e demais peças ornamentais;
-Aquisição da nova e esbelta bancada para a
nave lateral esquerda;
-Remoção das famigeradas platibandas que
permitiam a infiltração das águas pluviais;
-A correcção do telhado de toda a nave
central e dotação do respectivo forro que não existia;
-Substituição dos telhados e forro das
Capelas Mor, Senhora das Dores, Santíssimo, Senhor Jesus,
Sacristia, Sala Nobre e Museu de Arte Sacra;
-Limpeza das portas laterais e central,
guarda-vento e feitura das do Museu, etc.;
-Restauro completo com a remodelação e
ampliação do Órgão Histórico de Tubos;
-Dotação dos vitrais artísticos;
-Aquisição de quatro lustres de cristal;
-Finalmente, aquisição de uma série de
alfaias, móveis, imagens e objectos vários para uso exclusivo da
sagrada liturgia e valorização cultural da Matriz.
Inversão de valores
Todo este esforço, porfiado e permanente, sem
um descanso e com muitas arrelias e consumições (Deus o sabe)
tem-nos exigido por vezes muita coragem e determinação quando é
sabido que hoje em dia nada se consegue sem grande esforço e
dispêndio de energias perante uma acentuada onda de avassaladora
indiferença e materialismo que infesta as nossas comunidades à
medida galopante que os grandes valores - porque perenes e
imutáveis - se vão invertendo. Vive-se mais para o Ter do que
para o Ser. E muitos cristãos, porque incautos, deixam-se
seduzir apenas pelo Ter!!!
Após dois meses e meio encerrada aos fiéis
que habitualmente a procuram, eis que finalmente de novo, e no
meio de grande júbilo a Matriz de São Jorge se abre ao público
no exercício da sua missão de força moral e espiritual junto do
Povo de Deus!
Do sonho à realidade
Tudo começara por ser um arrojado sonho, dos
muitos que de vez em quando vão povoando o nosso inquieto
e insatisfeito espírito. É que a mediocridade em que tantos
apostam modernamente, com toda a sinceridade o dizemos, nunca
bateu à nossa porta...
Criar condições para o belo, expressão
máxima de Deus, na elevação e contemplação do Deus vivo, do
espírito humano, tem sido sempre nota marcante e dominante da
nossa conduta pastoral, da nossa actuação ministerial, embora
nem sempre todos a compreendam...
De facto, nem sempre é fácil a sua
concretização, passar do sonho à realidade! Todavia, quando a
causa é nobre e tem o selo de Deus nada nem ninguém nos poderá
deter, mesmo que certos ventos de incompreensão e ajuda
reduzida possam soprar nessa direcção.
É que, geralmente, as grandes obras, os
grandes empreendimentos - é a História quem no-lo testifica -
não são o fruto de multidões desmesuradas, mas sim, o produto
de poucas e sólidas vontades, apostadas na qualidade e na beleza!
Segurança a imprimir
Sendo o maior, o mais antigo e por conseguinte,
o mais importante templo desta ilha, a Matriz de São Jorge, com
as suas avantajadas naves de tectos forrados a estuque antigo,
não oferecia, no nosso entender de muitos anos de experiência, a
segurança necessária para os fins, devido à mais que evidente
fragilidade do referido estuque susceptível de lascar e cair a
qualquer sismicidade como realmente aconteceu na fatídica
madrugada de 9 de Julho do passado ano.
Impunha-se, portanto, a sua renovação
cuidadosa num trabalho série que não só obviasse a estes riscos
imprevisíveis, mas também contribuísse de certo modo para um
maior embelezamento e valorização do espaço litúrgico. É que
Deus, como temos repetido infindas vezes, não precisa de coisas
belas, mas merece-as!
Ele é a Suma Beleza!
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