Jornal da Praia

O Quinzenal da Cidade da Praia da Vitória - Açores

Jornal da Praia

Edição de 06 de Agosto de 1999       Ano XVII     Nº 276

Igreja Matriz

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PRESIDÊNCIA ABERTA
E GUERRILHAS FECHADAS

Falta muitas vezes a certos políticos, mais preocupados com o seu umbigo do que com o bem comum, o bom senso para distinguirem as tricas caseiras e os interesses de grupo de amigos, normalmente bem instalados na vida, das reais necessidades e carências da população. Aflige-os a frequência ou ausência nos noticiários. Uma semana sem que o Jornal lhes traga a fotografia e a referência a bocas e amuos, é o suficiente para uma conferência e uma reunião do estado maior.

Estão mesmo convencidos da infalibilidade das suas receitas, traduzidas no quero, posso e mando. Dificilmente enxergam para além do seu poleiro, e só conseguem trabalhar com um coro de hosanas dos habituais homens de mão.

Claro que quando saem da sua quinta, e não possuem o confortável apoio duma complacente maioria, perdem o juízo e a compostura, e o ridículo cobre-lhes a soberba.

Antes de mais conviria que distinguissem o pessoal do institucional. Um governo, uma Assembleia, uma Autarquia, podem ter afinidades com famílias políticas diferentes, mas todavia as populações que governam são as mesmas, e os interesses destas devem sobrepor-se a guerrinhas de comissões políticas despeitadas pela falta das cadeiras a que estão habituadas. Caramba! Deixem sentar os outros de vez em quando!

Como o Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, teve ocasião de salientar com elegância e elevação, há que saber possuir a visão do conjunto, destas nove Ilhas que são geograficamente Arquipélago e administrativa e politicamente Região Autónoma. E concretamente desta Ilha Terceira de Nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo a segunda mais populosa não deixa de ter a dimensão que tem, certamente modesta à escala planetária e mesmo nacional.

A estrada do Mato, a Achada, ou Via Rápida como hoje a designam, ou ainda estrada Vitorino Nemésio por iniciativa de Angra, não poderá nunca ser uma fronteira, independentemente de quem exerça em concreto o poder num ou noutro concelho. Na Ilha não há fronteiras de entrada e saída, para além do Mar que a todos nos limita e abraça.

Praienses e Angrenses, quer queiram ou não, vivam ou trabalhem numa ou noutra parte da Ilha, pertençam ou não a uma ou outro clube, são parte dum todo, e se hoje chove a Oeste, amanhã pode a terra tremer a Nascente. As estruturas básicas, independentemente de se situarem no território dum ou doutro concelho, e das questões específicas daí resultantes, são para uso e benefício comum.

E não só da Ilha, mas do Arquipélago inteiro. Ou se surgisse petróleo no Corvo era só para os 350 habitantes...?

E esta pertença a um todo regional e insular tem de ser exprimido pelo respeito que nos merece o Governo Regional dos Açores, e concretamente o seu actual Presidente, Carlos César. Ao contrário do que possam pensar algumas mentes mesquinhas e tacanhas na sua forma caseira de fazer política, o ignorar ostensiva e publicamente o Presidente do Governo, como sucedeu ainda agora, pela inauguração do Estádio Municipal da Praia da Vitória, ainda por cima perante o Presidente da República e comitiva, em nada dignifica os Açores.

Questões de Estado, isso sim, seria o debate sobre o Estado Regional, que tanta celeuma levantou recentemente, por que foi Jardim que o disse. Há anos, desde 1979 pelo menos, que um Partido Político, o do Atlântico, nascido nas Ilhas, fala no assunto sem qualquer eco. Pudera! Não tem as tais cadeiras para oferecer...

Questões de Estado também a famosa definição de questões específicas ,que o tribunal Constitucional da República Portuguesa sempre reduziu a abalos, anti-ciclones e pouco mais (agora a areia, amanhã - ou já hoje - o peixe, os minerais, os combustíveis, enfim, o peixe de fundo...).

Agora, viver obcecado pelas próximas eleições e pela ambição do poder, é defraudar a Terra e as Populações.

 

Higinio Borges de Meneses
Uma figura ilustre nacional

Higinio Borges de Meneses, natural de Santa Cruz da Praia da Vitória, nasceu a 23 de Janeiro de 1912, na Rua de São Paulo. Filho de Higinio Borges do Rego e de Maria Inês Borges.

Fez a instrução primária na então Vila da Praia e aos 17 anos decidiu formar-se , cursando então o Liceu de Angra, tendo por explicador o Dr. Teotónio Machado Pires, seguindo depois para o Continente.

Viria a licenciar-se em Direito (Ciências Histórico–Jurídicas) pela Universidade de Lisboa no dia 12 de Julho de 1939 com distinção, 17 valores de média.

No ano seguinte, em Março, ocupava o cargo de 3º oficial da Secretaria-Geral do Ministério da Educação Nacional. Em Outubro do mesmo ano passava a exercer o cargo de Chefe de Secção da Direcção–Geral da Fazenda Pública. Ambos os cargos que exerceu, nas provas de classificação viria a ser o primeiro classificado.

Em 1942 estagiou junto da Comissão das Construções Prisionais, Ministério das Obras Públicas e Comunicações, acumulando funções na Cadeia Penitenciária de Lisboa, Cadeias Civis Centrais de Lisboa bem como, no Instituto de Criminologia também em Lisboa.

Em Setembro de 1944 começou a exercer o lugar de Chefe de Secção de Consultas Jurídicas do Ministério da Justiça.

Dois anos depois, Janeiro de 1946, passa a desempenhar o cargo de Chefe da Repartição Técnica da Direcção–Geral dos Serviços de Registo e do Notariado.

Em Novembro de 1952 inicia funções de Chefe do Gabinete do Ministro do Interior, Dr. Joaquim Trigo de Negreiros. Em 1956 seria o Administrador da Imprensa Nacional de Lisboa. Com a passagem desta a empresa pública, ocupava então o cargo de Presidente do Conselho de Administração. Dois anos depois, dá-se a fusão da Imprensa Nacional de Lisboa com a Casa da Moeda e Higinio Borges de Meneses passa a ocupar o lugar de Administrador–Geral da recém criada empresa pública.

Paralelamente aos cargos que ocupou durante 30 anos, exerceu também a advocacia, além, de colaborar activamente no Boletim do Ministério da Justiça e na elaboração de diversos projectos de diplomas legislativos sobre assuntos vários (1).

Higinio Meneses casou em Lisboa, a 14 de Dezembro de 1940, com Leonor Corvelo Ávila, natural da Sé de Angra. Deste casamento teve dois filhos.

Após passar à reforma, o Dr. Higinio Borges de Meneses, começou a visitar assiduamente a terra que o viu nascer. É de recordar, numa dessas visitas, Setembro de 1988, data da reabertura ao culto da Matriz da Praia da Vitória, no qual, este ilustre praiense foi o orador oficial da Sessão Solene que se realizou Salão Teatro Praiense. O discurso proferido, encantou, enchendo a alma aos praienses.

Era uma pessoa afável e de uma bondade extrema para como seu semelhante. Das inúmeras cartas, enviadas pelos seus conterrâneos, que recebia no Continente, a todos respondia.

Aquando a sua morte, no passado dia 8 de Julho, os sinos da Misericórdia da Praia da Vitória dobraram pelo desaparecimento deste ilustre filho desta Cidade.

Foi colaborador frequente e empenhado deste Jornal. É de salientar os inúmeros artigos de opinião, bem como os outros trabalhos que ficarão, não apenas na ténue memória dos leitores, mas para a posteridade. A recordar os artigos de figuras histórias da nossa ilha: António Jacinto Ázera; Dr. Ramiro Machado, ou ainda o artigo, publicado no ano passado intitulado "Recordações da Mocidade –O Eugénio que conheci em rapaz".

Será publicado em breve e em jeito de Post Scriptum um trabalho que escreveu para o Jornal da Praia referente a D. José Vieira Alvernaz, padre da Matriz da Praia da Vitória, Provedor da Santa Casa da Misericórdia e Capelão do Lar D. Pedro V.

 

(1) Merelim, Pedro de – Freguesias da Praia, vol II, ed. Direcção Regional de Orientação Pedagógica da S.R.E.C., A.H., 1983, pp 634-635.

 

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