Voltar à Página inicial Jornal da Praia
 
 
Janeiro de 2001

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Notícias

Obras de Fachada- Victor Ramos

O futuro do cais do Porto das Pipas está garantido; a Marina quase concluída; os postos da iluminação de toda a marginal, substituídos por outros com mais e maior manutenção; a ETAR a dejectar para o saco da angra.
Sei que a minha linguagem não vai além do meu universo. Mas, segundo Théophilo Gau-tier: Tudo passa. Só a arte robusta possui a eternidade, e os socialistas já perderam a oportunidade para apresentar arte robusta. Deitam abaixo os hotéis e reedificam o edifício do turismo pelo teto.
Desde a outra senhora, pas-sando pela governação PPD/PSD, acabando no socialismo de rosto humano, chegamos ao inconcebível, que é abrir as portas ao turismo sem camas para o deitar. Com esta mudança de cor política, esperávamos inovações e só nos saíram aberrações.
Cabo Verde, castanho sem verdura, estuda as nossas dificuldades, para corrigir as suas asneiras. Apoiamo-los, ensinamos. Mas eles vêem aquilo que não enxergamos: facilitar a entrada, de divisas externas, no arquipélago com a participação de terreno e menos impostos; para além de outras facilidades burocráticas e utilidades. Aca-bam de criar uma sociedade pública aberta a parceiros pri-vados. A Sociedade de Desen-volvimento Regional da Boa-vista; com boa visão concluíram que o Oficial de Dia deve provar o rancho para ver o seu estado, mas distribui-lo pelas tropas, a quem a comida do tacho se destina. Em termos de justiça o Governo cabo-verdiano, em Macau, foi assinar um protocolo com os chineses. São estes que têm a devida paciência para tal cola-boração. Embora, se tente en-saiar, ou lançar a isca, para se formar uma comunidade tipo Reino Unido Português exten-si-vo a S. Tomé e Príncipe.
A Oásis Atlântica, sociedade portuguesa para desenvolvi-mento turístico, está investindo naquele Arquipélago, aonde vê que pode ter garantias de re-torno do seu investimento. Principiando pelas três cidades principais, com boas praias, está construindo hotéis com os seus acessórios de lazer e entre-tenimento nocturno. Isto é, principiaram e, ao mesmo tem-po, desconcentrando, pelas cidades da Praia, Mindelo e S. Filipe. Desta forma não cen-trali-za-ram na Capital como aqui queriam e querem fazer em Ponta Delgada. Pois, Mindelo é a cidade mais verde, e a cidade da Praia boa é para gover-nação. Mais atrasados, mas não afirmam que turismo é Ponta Delgada e o resto é só paisagem. Os cabo-verdianos querem, crêem e esperam um desenvolvimento harmónico, mas diferente da harmonia açoriana.
Vejam se eles assim proce-dessem na sua cidade da Praia? Mindelo, a mais bela, ficaria deserta só para pretinho viver e produzir mornas para o resto das ilhas.
Mas, também, nós tercei-renses, pouco podemos adian-tar. Não vemos que estamos cercados de mar num perímetro que não chega aos cem quilómetros. Desta forma, per-dida a noção da nossa peque-nez, não atingimos que discórdia entre a Praia e Angra, não passa da guerra do alecrim e da manjerona. E o resultado, como exemplo, está na Estala-gem da Serreta. Nasceu torta, torta se desmoronará. Quando tão fácil teria sido reactivá-la, dar-lhe lazer e facilidades com menos burocracia criada e vei-culada de S. Miguel com o beneplácito de Lisboa. Porque a discriminação é anticonstitu-cional e, por isso mesmo, o Presidente é-o de todos os portugueses a tempo inteiro e não só em pré-campanha e na campanha. Deveria ter mais atenção para as assimetrias aço-ria-nas. Assim sendo, tem uma palavra quando não se cumpre a Constituição na Região, mes-mo que autónoma. Porque não pode haver só a capital, e o resto que tanto deu ao país e à região ficar, somente, para mirones passarem como por cima de brasas.
E, porque estou falando de crescimento harmónio, Portu-gal, no dia 17 de Julho passa-do, entregou em Bruxelas, pela mão do ministro José Sócrates, 29 novos sítios protegidos para a Rede Natura. Será que o pico do Pico, ilhéu do Topo, Contendas, Serreta, S. Lou-renço, ilha do Corvo entre outros projectos, foram ou já constam dessa linha da Rede Natura?
Quem pergunta não ofende, mas é que da forma que so-mos esquecidos, nada nos a-dmi-raria só termos zonas protegidas a nível regional sob a égide do senhor presidente de todos os açorianos que falam o mesmo dialecto. E isso não nos basta para o desenvolvimento turístico açoriano.

Corrigir erros da  Autonomia
também é  aprofundá-la A democracia que os intrépidos militares de Abril devolveram aos portugueses com cravos na ponta das suas armas e quase sem derramamento de sangue esteve, e sempre se tem mantido, vulnerável a ?  Moniz Bettencourtgolpes palacianos.
Desde logo, surgiram encapotadas tentativas, felizmente sem êxito, de regresso a uma nova ditadura do mesmo sinal ou de sinal contrário.
A falhada manifestação silenciosa em Março e a derrotada intentona de 25 de Novembro de 1975 justificam, claramente, à luz do que hoje se conhece, esta nossa afirmação.
Os co-autores desses atentados à democracia só não conseguiram as suas nefastas intenções porque representavam minorias e se lhes opuseram maiorias de portugueses, de diferentes correntes de opinião, mas todos saturados da administração de partido único de mais de quarenta anos.
Quer queiramos quer não, há acontecimentos de que fala a História dos povos que ciclicamente se repetem, ainda que com diferentes matizes, mesmo que se grite bem alto que “O Povo unido, jamais será vencido”!
Os políticos da primeira República também tiveram, desde o seu advento em Outubro de 1910, a constante preocupação de defender a sua democracia, porque o perigo espreitava a cada canto. Sobretudo, quando ao interesse nacional se sobrepunha a luta partidária pela hegemonia política.
Mas o nosso povo, já nesse tempo, confiando em promessas fáceis de fazer mas também facilmente esquecidas, aceitou ingenuamente com boa a Constituição de 1933 que havia de vir a dar à luz a ditadura, rotulada de Estado Novo, cujo malefícios algumas gerações sofreram... e de que as novas ouvem falar sem lhes dar muita atenção, ao que parece!
Sem pretendemos ser derrotista ou “Velho de Restelo”, ao assistirmos hoje a quase diárias manifestações reivindicativas de rua ou, se preferirem, de indignação, por todo o país, somos tentados a concluir que estamos vivendo dias que devem merecer uma especial atenção dos nossos legais governantes... porque todo o cuidado é pouco.
Os açorianos acabam de entregar o poder, em eleições livres e de acordo com a Lei Eleitoral em vigor, aos que de uma maneira um tanto ou quanto capciosa, ambicionavam uma maioria absoluta para governarem a Região segundo uma NOVA AUTONOMIA, que não necessita de ser aprofundada, segundo percebemos das palavras de Sua Excelência, o Presidente do Governo Regional, no seu discurso de recondução.
Porém, não nos restam dúvidas de que só uma democracia controlada pelos partidos oferece as virtualidades para que numa Região de parcos recursos, como esta nossa, seja possível alcançar um mais, integrado e sustentado desenvolvimento que a todos beneficie.
A pseudo AUTONOMIA TRANQUILA (!) que tivemos durante alguns anos, enfermou, sem dúvida, de condenáveis discriminações, metendo na “gaveta” projectos que são aspirações justíssimas das gentes teimosamente residentes nas ilhas, por alguns, acintosamente tidas por “ILHAS DE BAIXO”(!). Tome-se, como expressivo exemplo, o já velho projecto de Defesa da Nossa Orla Costeira.
E é, por isso que, com o devido respeito, discordamos da dita referência ao seu não aprofundamento. Porque corrigir permanentemente os seus desvios e vícios também é aprofundá-la.
E porque sé assim se conseguirá o desenvolvimento que é justa ambição de todas as ilhas, particularmente dessas que a olho nu se vê, ainda o não mereceram e lhes tem vindo a ser sistematicamente recusado.
Moniz Bettencourt
 
 

Coimbra, Figueira da Foz
e Mira Coimbra, Figueira da Foz
e Mira

Pelas 10 horas do dia 24 de Julho, a caravana terceirense zarpou de Aveiro em direcção à cidade de Mondego, onde estavam previstas visitas ao “ Portugal dos Peque-ninos”, à Universidade e a outros centros de interesse histórico e turístico. Infelizmente, o espesso nevoeiro e a chuva persistente não permitiram que saíssemos do au-tocarro e deambulássemos pelas ruas da história e culta cidade. O encanto da Coimbra dos fados e das des-garradas, dos estudantes e doas tricanas, das repúblicas e das serenatas, das praxes e das queimas de fitas, não passou de míticas reminiscências a emoldurar antigos sonhos de juventude de irrequieta, irreverente e boémia.
Para quem conhecer a Coimbra do Choupal e do Penedo da Saudade noutras ocasiões, foi confrangedor rever a mais doutora urbe de Portugal envolta num infindável manto cinzento, orvalhado mais pelos sentimentos de desapontamento e desânimo do que pelas gotículas duma chuva miudinha. Apenas pudemos apreciar o impressionante Mosteiro de Santa Clara; após a sua visita, era já a hora de almoçar, o que aconteceu num vasto e agradável restaurante.
Foi pena não podermos cantar “ Coimbra tem mias encanto” na hora da despedida nem pormos um ramo de flores na campa de Mestre Vitorino Nemésio, sepultado no Cemitério dos Olivais. Ficará para outra oportunidade. A esperança é a última coisa a morrer. Coimbra ficou por conhecer, apenas por agora.
Às 15 horas, rumámos para a cidade-praia, a Figueira da Foz. Apesar do intenso nevoeiro (que não se abate apenas sobre as nossas ilhas), ainda os membros do Orfeão da Praia e acompanhantes conse-guiram vislumbrar parte dos arrozais das margens do Mondego e algumas fatias de pequenas paisagens de povoações  a quererem despontar por entre o enevoado.
Para quebrar a monotonia e levantar um pouco o moral do grupo, fizemos uma paragem numa grande superfície comercial a meio do trajecto. Mas aqui nada de novo, a não ser alguns guarda-chuvas (muito necessários) e uns saquinhos de aperitivos para entreter os dentes e combater a monotonia.
Em cada quilómetro percorrido aumentava a decepção. A expectativa do bom tempo na Figueira ia mor-rendo a pouco e pouco. O nosso Olivério e mais alguns coralistas entoavam a conhecida canção “Fi-gueira, Figueira da Foz”, mas esta não queria ainda dar um ar de sua graça. Por fim, chegámos ao centro urbano com grande alívio e desejo de calcorrear as suas ruas, entrar nas suas cervejarias e lojas de “sou-venirs”. O autocarro ficaria imobili-zado nas imediações da Torre do Relógio, o ex–líbris da vastíssima praia e u ponto de referência e de encontro para evitar a proliferação de Dons Sebastiões por entre nevoeiros. Por azar, já bastou o de Alcácer-Quibir da História e nós não está-vamos interessados em suceder-lhe no desaparecimento e na desgraça.
A tarde já reclinava a sua fronte, não que a víssemos a olho nu, mas pelos ponteiros do imponente relógio sabíamos que odia chegava ao seu termo. Era preciso regressar ao ponto de encontro, onde esperamos alguns minutos pelos que se distraíram nas compras e no mirar dos exóticos candeeiros de uma das artérias principais da cidade. E por entre o nevoeiro e o movimento engasgado de viaturas, lá ficamos prisioneiros durante longos e intermináveis minutos. A Figueira persistia em não deixar que dela saíssemos, mas nós só pensávamos na etapa seguinte – a Vila de Mira, estância balnear e local de Encontro de Coros. Ao chegarmos havia não apenas nevoeiro mas chovia e trovejava. Mas, com que por milagre, o tempo melhorou muito e mesmo com as ruas cheias de água, S. Tomé passeou em pro-cissão no dia da sua festa e, ás 20h30, como estava programado, iniciou-se na Matriz de  Mira com a igreja abarrotada de gente, a grande noite de música coral. Depois do imprescindível ensaio e de uma bifana à pressa, lá foi o brioso Orfeão da Praia para a mais noite de gala musical , na que seria vibrante-mente aplaudido. O repertório, como era de esperar, foi predominante-mente constituído por música popu-lar açoriana. O Orfeão da Praia actuou a seguir ao Grupo Coral de Mira  que deu as boas – vindas aos grupos visitantes, interpretando apenas três peças.
Participaram ainda o Grupo Coral David de Sousa da Figueira da Foz e o Grupo Coral Juvenil Silvia Mar-ques Mortágua, com cerca de 70 elementos com idades compreendidas entre os 8 e os 21 anos e que empolgou quase todos os presentes pela sua vivacidade e alguma tea-tralidade à mistura-se, diga-se.
Todos os coros deram o seu melhor e os seus cânticos embele-zaram ainda mais, a bela Matriz de Mira, construída pelos Crúzios de Coimbra e obra de estilo maneirista (Renascença) dos finais do século XVII (1690). De fachada simples, ladeada por uma porta axial  e um pequeno nicho. O seu interior é composto por um altar-mor, dois colaterais do século XVIII e XIX e uma capela no corpo. A qual é revestida de azulejos setecentistas de fabrico coimbrão com 13 painéis alusivos à Paixão de Cristo. Os tectos são de madeira com pinturas da época barroca (como pudemos ler e constatar).
Após esta noite memorável e inesquecível, que encerrou com trocas de lembranças e felicitações, o Orfeão da Praia e todos os demais grupos confraternizaram numa lauta ceia que teve lugar no estabelecimento escolar local.
E já passava da uma da madrugada quando a caravana musical praiense iniciou o seu muito divertido retorno a Eirol. Dir-se-á que a esfuziante alegria era agora a vingança contra o mau tempo vinda. Mais uma vez se verificou a justeza do adágio “após tempestade vem a bonança” e da canção “atrás de tempos, tempos”.
 

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