Pulmão trai os homens...


Os números não deixam margem para dúvidas. Os cancros – ou tumores malignos – que atingem os pulmões e a laringe são, maioritariamente, consequência do hábito de fumar. No Serviço de Oncologia do Hospital do Divino Espírito Santo, nos últimos seis anos, foram registados cerca de 250 casos de cancro de pulmão e 35 cancros de laringe, ambos predominantemente junto de indivíduos do sexo masculino, com idades entre os 40 e os 50 anos. O combate ao consumo do tabaco, para Luís Dias, responsável por este serviço, tem de passar, em primeiro lugar, pela sensibilização dos mais novos.


Os cancros que surgem com mais predominância são, no caso das mulheres, o da mama e, no caso dos homens, o cancro do pulmão, sendo que, actualmente, o número total destes tumores malignos seja semelhante.
Nos últimos seis anos, o Serviço de Oncologia registou 253 casos de cancro de mama e 241 de pulmão. Em termos de diferenças entre sexos, no caso dos tumores malignos de pulmão, os dados referem 217 homens contra 24 mulheres.
No caso dos números referentes ao cancro da mama, essa discrepância também é acentuada, de 250 mulheres para três homens, “talvez porque o hábito de fumar tenha surgido junto das mulheres um pouco mais tarde, do que para o sexo masculino”, acrescenta.
Na análise a outros tipos de cancro, podemos encontrar tumores no cólon e recto, seguidos dos que atacam o sistema gástrico, os tumores ginecológicos (cólon do útero, ovários) e, já a uma grande distância, ao nível dos números daquele serviço, surgem os relacionados com a cabeça e pescoço.

Segundo Luís Dias, responsável por este serviço, “é difícil dizermos se o número de casos tem ou não crescido de ano para ano”. Aquele serviço hospitalar funciona à base de doentes que chegam referenciados por outros serviços e que padecem, na sua grande maioria, de doença oncológica.
Em cada ano a unidade recebe certa de 300 novos doentes, que são encaminhados conforme as patologias que lhes são diagnosticadas.

SEIS ANOS COM 35 CASOS DE CANCRO DA LARINGE

O cancro da laringe assume características um pouco diferentes ao nível da oncologia pois, em muitos casos, o tratamento e acompanhamento e feito através das consultas de otorrinolaringologia.
A casuística de cancros da laringe dos serviços de oncologia é de 35 casos, nos últimos seis anos, sendo que a variação tem sido de cinco a sete casos por ano.
Intimamente relacionados com o consumo de tabaco, os cancros da laringe e do pulmão atingem assim proporções consideradas preocupantes, embora Luís Dias refira que haverá outros cancros que poderão esta mesma origem, como por exemplo, o do esófago e da bexiga. “Não há, no entanto, uma relação directa de causa/efeito entre estes tipos de cancro e o tabaco. Não é pelo facto de alguém fumar que este possa vir a padecer desta doença, mas que o tabaco é um factor de risco, disso não tenhamos quaisquer dúvidas que sim”.

Acrescenta que, no caso dos doentes ali internados e que sofrem deste tipo de cancro, a grande maioria é fumador. Ainda no que diz respeito ao cancro da laringe, o predomínio vai para o sexo masculino.
O cancro da laringe é relativamente frequente, inserindo-se entre os tumores de pescoço e cabeça, em geral, que representam cerca de 5% de todos os tumores do organismo. “O facto de uma pessoa, a quem foi diagnosticado um cancro na laringe ou em outra zona do pescoço, deixar de fumar é claro que lhe vai proporcionar uma muito melhor qualidade de vida. Isto acontece na maioria das situações, mas, no caso do cancro de pulmão – nem sempre acontece – mas deixar de fumar é sempre o mais aconselhado por nós”, diz.
Há mesmo quem considere que a importância destes tumores é muito maior em relação aos outros, porque são tumores responsáveis por alterações de ordem estética e funcional. O doente com cancro da laringe não tratado perde a voz, deixa de respirar pela boca e acaba por ter que ser submetido a uma cirurgia que só lhe permite respirar por um orifício no pescoço, a chamada traqueotomia. Por estes motivo, é um tumor com uma repercussão social, laboral e familiar muito grande.
Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores serão então as hipóteses dos doentes conservarem a sua laringe. Os especialistas médicos dizem mesmo que “sempre que a pessoa tem uma rouquidão que se prolonga para além de um mês, deve ser observada por um especialista”.
Este sintoma é particularmente importante nos fumadores e nos alcoólicos e sendo que Portugal se apresenta como um dos países com maior taxa de alcoolismo do mundo, será natural que o cancro da laringe tenha uma grande incidência no nosso país.
Para além dos dois grandes factores de risco, tabagismo e alcoolismo, existem outras circunstâncias que podem aumentar a propensão para se vir a sofrer deste tipo de tumor, como seja o caso de indivíduos que trabalham em metalúrgicas (e que têm algum acréscimo deste tumor), mas o tabaco e o álcool são os principais responsáveis por esta doença.

ROUQIDÃO É O PRINCIPAL SINTOMA

A rouquidão é o principal sintoma, mas se um doente adulto tiver uma dor persistente localizada na zona da garganta também deve recorrer ao médico, porque pode indiciar problemas da faringe.
O tratamento varia de acordo com a dimensão do tumor. Uma pequena lesão de uma corda vocal, por exemplo, permite que o tumor seja retirado sem extrair toda a laringe. O doente irá ficar rouco toda a sua vida, mas terá toda a sua função, portanto, não precisará de ter o tal “buraco” no pescoço e continua a falar com a boca, explicam os especialistas. Mas, caso o doente tenha um tumor muito grande tem que tirar toda a laringe e passará então a respirar por um orifício no pescoço. Estes últimos doentes só poderão articular algumas palavras através de um mecanismo artificial.

O cancro da laringe atinge muito mais os homens, apesar de em certos países, como os Estados Unidos da América, a incidência estar a aumentar entre as mulheres. A maioria dos casos aparece por volta dos 45 anos, mesmo em pessoas que já deixaram de fumar. Mas fica o alerta: mesmo uma pessoa que deixou de fumar há 20 anos não está livre de vir a ter cancro da laringe, decorrente da acção nefasta que o tabaco tem nas células deste órgão.
Para além deste, também o cancro pulmonar atinge números mais significativos junto dos indivíduos do sexo masculino.

HÁBITO MAIS PERIGOSO PARA A MULHER: FUMAR

O hábito mais perigoso para a saúde da mulher na Europa é fumar. O tabaco é uma das maiores ameaças à saúde e bem estar da mulher em todo o mundo.
Actualmente, mata mais de meio milhão de mulheres em cada ano, mas é esperado que este número duplique até ao ano 2020.
Em alguns países, o cancro do pulmão já ultrapassou o cancro da mama como a principal causa de morte nas mulheres. É especialmente nas camadas mais jovens que as mulheres que fumam mais que os homens. Desde os anos 70, o número de fumadores diminiu entre homens e mulheres.
Em todo o mundo, o hábito tabágico está a espalhar-se especialmente entre as mulheres de classes sociais mais baixas, que deixam de fumar com menos frequência do que outras mulheres.

Encontrar formas de conseguir que as jovens de classes mais baixas adoptem um estilo de vida livre de tabaco é um grande desafio para as escolas e profissionais de saúde.
Na União Europeia, o cancro do pulmão está a crescer mais rapidamente nas mulheres do que nos homens. Sinais de alarme foram já dados em alguns países onde o cancro do pulmão é actualmente mais comum entre as mulheres abaixo dos 45 anos de idade do que nos homens na mesma idade.
As mulheres não se devem deixar enganar pelo forte e persuasivo marketing da industria do tabaco, mas perceber que o melhor que podem fazer por elas próprias é deixar de fumar.
Para além ao indiscutível efeito prejudicial na saúde, fumar tem efeitos maléficos na aparência, pele, dentes, e higiene oral. Estes aparecem relativamente cedo após começar a fumar. A maioria deles, porém, são felizmente reversíveis após deixar de fumar. Os efeitos na pele e a consequente formação de manchas é irreversível, se se fumar por décadas. Depois de 20 anos a fumar, a pele de uma mulher de 40 anos de idade já envelheceu outros 20 anos.
Nunca é tarde para deixar de fumar. Cada ano que passa dezenas de milhares de mulheres têm sucesso em deixar de fumar por si próprias.

SERVIÇO DE ONTOLOGIA SEM LISTAS DE ESPERA

“Nós não temos listas de espera”. A afirmação é do responsável do serviço de Oncologia, do Hospital do Divino Espírito Santo, Luís Dias.
Os doentes que ali chegam referenciados são atendidos em cerca de três ou quatro dias e segundo acrescentou “muito se deve ao esforço pessoal que, todos os quatro médicos e o pessoal de serviço, fazem para que tudo decorra dentro da normalidade. Também, pelo facto de se tratar de um tratamento de uma patologia mais delicada, leva-nos a tentar não prolongar, mais, o sofrimento dos que aqui chegam”. Ao nível das cirurgias, Luís Dias reconhece que existe um compasso de espera, mas que é mínimo e não de meses, como acontece noutros serviços. Actualmente apenas se encontra a aguardar cirurgia dois pacientes, há menos de um mês. A demora média do atendimento neste serviço é de 1,68 dias.
Semanalmente chegam a ser atendidas mais de cem pessoas na Oncologia do HDES, num leque de primeiras consultas e de seguimento, estas com tendência para se irem acumulando de ano para ano. Ao nível da unidade de dia, Luís Dias disse ao nosso jornal que não existe falta de meios ou de pessoal. No que diz respeito ao internamento, neste momento, existem algumas camas de Oncologia que são partilhadas com outras de especialidades diferentes.
Questionado sobre, qual a sua opinião acerca das campanhas antitabágicas que surgiram mais recentemente em Portugal, Luís Dias considera que “talvez, numa primeira reacção as pessoas possam ficar chocadas ou incomodadas, mas o passo seguinte leva-as a comprar uma carteira onde possam colocar os cigarros”.

No entanto, face à cada vez maior difusão dos malefícios do tabaco para a saúde humana, este médico e responsável pelo Serviço de Oncologia diz não acreditar que “haja quem fume e não conheça os problemas que daí possam advir. É claro que, se todas as vezes que comprarem um maço e lerem ou virem as imagens – como já acontece em alguns países – poderão ficar mais sensibilizadas para deixar de fumar”, conclui.